Thursday, September 13, 2007

DA INDISCRIMINAÇÃO







A meditação é a Métis despida de percepções.

Mahabuda da Tangória


1. Quer a miséria quer a abundância provocam um choque que leva à retracção e à multiplicação dos meios da glória ou da secagem. Este é o inquérito indiscreto desses caminhos. Toda a inquirição é um suplemento, uma floresta superflua de causas. O desiquilibrio resultante do choque supramencionado requer, mais do que consolo, remédio. O remédio só pode vir como teoria visivel ou visibilidade teorica. As imagens, embora de duração limitada, abrem-se à impermanência. O espirito fixa nos seus arquivos o que na retina é apenas passagem. O catálogo das imagens curativas é a Doxa.

2. A teoria é a encenação estrategica dos meios visiveis. As táticas que revela estratificam-se em sequências modais. Os aspectos revelados tanto podem ser calmantes quanto salpicados de colorações destrutivas e excessivas. A teoria tende a distinguir-se de si própria. É krisis contra as suas asserções mais fluentes. Difere-se em si, para si e contra si. É este o método superior que permite o entranhamento cognitivo nas coisas e a discriminação do manifesto. Quanto ao ainda não manifestado (ou imanifesto), só pode ser advinhado como possibilidade sequêncial. Conhecer, é acima de de tudo categorizar hipoteses sequênciais que se adequem ao manifestado, ao manifestando e ao manifestável.

3. Consideremas a massa original no seu estado imberbe como possibilidade desmassificadora. Como raiz antes da produção e do mundo como reprodução desmassificante. A raíz não sendo improdutiva é um não-produto. Os sete princípios generativos surgem da Megamétis, o intelecto pragmático, a suprema astúcia. Os sete principios são produtos e produtivos. Os dezasseis principios são meros subprodutos. Há no entanto uma entidade antes da krisis que não é nem um produto nem produtiva. É a homeostase absoluta. As explicações para o aparecimento da krisis (o mundo como distinção e multiplicação) são insatisfatórios, e as hipóteses um engodo. O mundo não precisa de justificações para a sua a origem ou para a sua morte. O sentido só pode ser assinalado como aquilo que é e não de onde pode ter surgido ou como estagnará. No entanto, a homeostase que antece a krisis, repõe, como algo magnético, os desiquilibrios fecundos que nascem quer da acelaração criativa, quer das degradações sucessivas. A prática das formações e deformações do mundo é a Homeostética.

4. Embora a percepção, a inferencia e os testemunhos sejam reconhecidos como provas dúbias não poderemos deixar de recomendá-los como atenção que leva ao opinativo, isto é, à formação de doxas, por mais liberais que estas sejam. Mais do que meras provas circunstâncias de hipóteses fecundas necessitamos das resistências das provações. Uma prova, mais do que uma certeza é uma recomendação e uma endoutrinação. Os meios de demonstração tornam persuasivas e eficases as provas. Tudo deve ser provado de modo a que as causalidades não fiquem em àguas de bacalhau. O rigor das provas torna mais consistente a teatralidade de todas as acções naturais e artificiais.



5. A percepção é a permeabilidade à circulação das coisas. É a possibilidade das criaturas se deixarem afectar de um modo periférico ou consciente pela rede de ruídos (intensos ou suaves) ou por signos identificáveis. As inferências e os aferimentos são a priori interferências. Nós somos o espelho do mundo (microscópico ou macroscópico) assim como o mundo é nosso espelho. O conhecimento é não só a marca de quem o possui como uma acção diligente sobre o estado das coisas. Os testemunhos tornam o testemunhado fiável. As revelações tornam o mundo uma revelação.

6. A percepção é uma rede de interferências. As coisas que se deixam apreender pelos orgãos sensorias são simplificações de um ruído de fundo. Essas simplificações são sugadas por mecanismos esquemáticos que as fixam na memória. A percepção implica um filtro «representativo». Não há presença pura. Os filtros representacionais nascem de atitudes predatórias, defensivas, guerreiras, disuasivas, etc. A ideia de testemunho é a de um ciclo de guerra que se consolida num conjunto de imagens estáveis. A ideia de revelação é a de instabilidade imaginal.

7. As lacunas perceptivas devem-se à fadiga da digestão sensorial e à impossibilidade de haver um continuo entre o interior e o exterior. A proximidade e a distância acabam por ser formas de apreensão distinta e a distância está sujeita a um leque de ambiguidades muito maior. A instabilidade provocada pela distância leva a jogos mentais complicados que provocam lacunas e confusão. O desejo de diferença e subtileza é um factor no afinamento dos sentidos, mas também consome mais tempo, obrigando a suprimir dados desfocados. A instabilidade mental é gerada devido à superabundância das percepções de todo o tipo. Qualquer focagem obdece a uma bricolage estratégica, a uma escolha que é da ordem da economia, da sobrevivência ou do prazer, embora possa haver outras causas.

8. Os seres são os clientes do mundo. Supõe-se que há uma materialidade dada que os esquemas mentais tentam despir. O sujeito é a interface entre os esquemas e a materialidade. A não-existência é entendida como limite da desagregação. Por isso a intelecção procura a subtileza e as diferenças. Organizar é sobreviver, é extremar as nuances para melhor resistir aos efeitos desagregadores. A intiligência é um dado coexistente à materialidade dada. Não há diferença essencial entre estes dois termos senão como distinção categorial. A intiligência consciencializa-se na capacidade de assimilar os similares e dissimilares. O mundo, que era não-engendrado, tende a cohabitar com as representações nascentes dessa assimilação.

9. Há uma causalidade difusa que é a que opera as grandes mutações e onde há alguma indeterminação, e há uma causalidade entranhada que é a subjugação dos seres e coisas às suas necessidades específicas e que é a servidão aos limites das suas «familias». A singularização e a vontade de marcar diferenças pode abrir possibilidades de mutação que não se tornarão indiferentes às outras criaturas. Quanto ao que não se deixa existir não pode ser arrastado para a esfera da existência nem para o turbilhão das manifestações.

10. Os efeitos são o sumo de causas apropriadas. Uma causa torna-se apropriada quando é propícia a que os efeitos se tornem propriedades. O que vai sendo é graças aos meios que se disponibilizaram para essa ida. A natureza procura a produção como forma de resistir à uniformidade e à nulidade. A aniquilação reduziria o manifesto ao inmanifestável. A uniformidade enlataria o mundo numa sopa unitária e anestésica.

11. O que se manifesta é fruto de uma produtividade cujos agentes estão em metamorfose. Muitas vezes as causas simples são admissíveis e pertinentes, o que não quer dizer que não possam acontecer infracções e excepções a esse tipo de causalidade simples. O facto de haver uma causalidade admissivel permite-nos formar padrões de percepção e de comportamento e deslocarmo-nos entre as coisas com confiança.

12. O que se deixa perceber como causável tende a a degradar-se, apresenta-se como delimitado, sujeito a metamorfoses e capaz de se dividir. É contextualizável e dependente de um determinado meio. Deixa-se apanhar na teia das projecções perceptivas através de representações nas quais se tenta classificar. O que agrega é passivel de ser identicado como proporção de componentes. Está inserido num conjunto de forças estáveis que lhe atribuem um papel na circulação das coisas.

13. Ao que resiste à participar na rede causal e a degradar-se como manifestante não se aplicam os anteriores atributos.

14. O manifesto é um entrançado de três agentes: o unitivo, o refractante e o indiferente. A natureza enquanto dada é o não-indivisivel. A descriminação que a ilumina tem que a negar e negar a negação. A natureza é «abjectiva», fluente, prolífica, inconsequente. Os esquemas e formas pelos quais se deixa possuir são-lhe co-existentes, como um outro lado da medalha. São similares na medida em que sempre que um difere o outro o segue.

15. Os agentes entrançantes também podem ser designados de hedónico, dolorista e ataraxico. São potenciadores do extase, do sacrificio e da decadência. Os jogos de poder levam a que ora uns sejam dominadores, dominados, parasitas, oportunistas, excentricos, coexistentes, solidários, ignorados, etc.

16. O agente hedónico é fluente, flexível e ligeiro; o dolorista é emotivo, esforçado e rigoroso; o ataraxico é atritoso, afundante e petrificante. A sua co-produtividade encaminha o mundo para uma complexidade crescente.

17. O indiscriminável e o repouso originantes são «dogmatizados» (inferidos-provados-intuidos) pela persistência dos três agentes entrançantes em acto. Caso estes não agissem o indiscriminável seria pura ausência. O indiscriminável é atestado através da dissipação dos agentes uma vez que as suas propriedades persistem nos jogos discriminantes em que estes se envolvem.



18. O indiscriminável assiste como conexão originante.

19. O sopro singular subsiste como bomba da animação das criaturas. As criaturas têm a sua razão de ser nos obstáculos da experiência. A actividade entra sempre num jogo de interdependências e/ou cohabitações de acordo como o ethos em que se movem as criaturas. A actividade só se realiza como liberdade. Liberdade absoluta ao nível dos sopros e liberdade relativa no jogo ético.

20. É no divergir que as singularidades soprantes encontram o seu para quê, tornando-se testemunhas da multiplicidade, espelhos «solitários» do indiscriminável, espectadores de uma ilusão resistente, ou não-re-agentes, neutros que sustentam na inactividade a acção.

21. A interface entre as representações que se acolhem e o neutro que reflecte através da não-acção que digere, leva à emancipação do sopro singular, quer do ser para os outros quer do ser para si mesmo. É como a fábula do coxo e da cortina. Desta junção predadora prossegue a cavalgada complexificadora.



22. Dos perliminares da matéria surgem os orgasmos da consciência, assim como o sujeitocentrismo e o seu oposto nihilista.

23. A intiligência funciona como um atractor magnético, organizando, orgasmando, censurando e ampliando as possibilidades através de objectos novos que surgem da secagem esquemática assim como de jogos fantasistas. A virtude, a sabedoria, o desapego e a soberania dão o toque de caixa quando predomina a ligeireza brilhante, tal como os seus opostos ocorrem quando a inércia obscurecente está em vantagem.

24. Os pensamentos que só se auto-descriminam são egoístas e não estão abertos aos prazeres da coabitação. Desse egoísmo surge a sujeição e os equívocos, assim como a injustiça na reciprocidade.

25. Os instrumentos perceptivos e cognitivos executam suas redes de funções num estado de alerta, de simpatia mútua e eco selectivo. A pertinência do indiscrimável é ser o que não se sujeita às causalidades e casualidades. Na sua plenitude nua nenhum instrumento o activa ou desactiva, porque, embora sendo espaço não tem dimensão.



23. O corpo-pénis (dito subtil) é primaveril, inconformado, nómada, determinado. Emigrando de corpo em corpo, vai-nos livrando do sofrimento substituindo-o por estratégias ataraxicas e por um sentimento de plenitude.

26. O corpo-pénis existe como transição para o corpo indiscriminável. No seu tango erótico assume-se em performances dramáticas, eriça-se como que possesso, solta as máscaras e destroi o eros diletante e serpentino. A sua exuberância resulta da maior próximidade com a Terra e suas descargas. É nesses momentos que é espelho da abundância originante e indiscreta.

27. As disposições preliminares provocam a revelação do inato. A germinação uterina obscurece os efeitos, ao mesmo tempo que os procura de uma forma inquietante. A virtude e o repouso dependem da persistência na disciplina. O rito é um instrumento da intensificação. O adorno revela o que falta ao conceito.

28. Na pulverização há uma absorção da Natureza, tal como através da despossessão o poder e o raio de acção aumentam. Assim o macho despossui-se pela emissão seminal, assim como a mulher o faz, de um modo mais concentrado, ao dar à luz.



29. O grande obstáculo é uma criação intelectual, denominada obstrução, e consubstanciada na doença, na morte, na dor e na enfermidade. É a obstrução que torna o tempo arrasador. O trabalho de descondionamento chama-se desobstrução.

30. Sem as disposições babosas nunca haveria um corpo-pénis. A lubricidade é a porta para a subtileza. A subtileza regenera as disposições grosseiras e dá um novo ânimo ao corpo visível.

31. A dor torna consciente a separação do corpo do mundo, por mais interna que seja. Assim o sofrimento é causado pelo distânciamento relativamente à natureza das coisas.

32. A natureza é emancipação. É a natureza que emancipa as criaturas destruindo os mecanismos de separação que provocam o distânciamento. A contemplação e a meditação limitam-se a aniquilar os separadores e a reunir o que nunca esteve separado. Os objectos são efectivos, isto é, reais. A natureza não é uma ilusão, embora provoque ilusões quando não contemplada.



33. Os povos copulam porque procuram perpétuar a acção. A gratificação do desejo faz com que o renitente em se manifestar se manifeste em festa. Só o apego ao desapego faz com que as criaturas se apeguem ao indiscriminável. E para que haja criaturas os povos multiplicam-se. Sem essa multiplicação o indiscriminável permaneceria abandonado e secaria. É a lubricidade da ilusão que faz com que ele não estale e se parta.

34. Tal como um dançarino desiste de dançar desnudando-se perante os espectadores assim o faz a natureza quando abandona a mobilidade, desistindo do movimento e revelando as suas formas originais (a sua genitalia). Mas o contrário também é correcto. É o movimento que abandona os dançarinos e a natureza. O estado incondicionado é dança nua, desmascarada da natureza ou do bailarino.

35. Nada é mais delicado e gracioso do que a natureza com a sua exuberância multifacetada e o seu efeito narcotizante. Mas a natureza, quer nas suas quietudes quer nas suas inquietações vibra graças aos seus pudores. Mesmo perante a sua essência mostra pudor. Só se expõe para fascinar o Ser.

36. Assim sendo, as essências não são emancipadas nem emancipadoras, nem emigram de corpo para corpo, mas mantêm-se apertadas como forcas aos corpos de que fazem parte até que estes arranjem coragem para se libertarem.

37. Pelo contrário, a natureza é auto-satisfeita na sua integridade e solidão, não se deixando aprisionar em questionários ou outras formas de indagação. Por mais limitada que seja, a natureza emigra perpétuamente para si mesma através de ciclos metamórficos, desanganando-se assim dos atritos e condicionantes de cada etapa.

38. A natureza perverte a sua «natureza» distribuindo-se através de modalidades de articulação. Mas o conhecimento dos modos de agir dessas modalidades liberta das causalidade perversas.



39. Assim com o estudo das articulações dos elementos e das sequências metamórficas esclarece a relojoaria do mundo, assim se revela o conhecimento do indiscriminável, despojado das ânsias perceptivas, conhecimento puro, desencarnado e despido de suposta essências.

40. Possessa deste re-conhecimento, e da natureza que se cessa (devido à retirada de suas modalidades de articulação), a criatura emancipada torna-se espectadora da sua própria dança.

41. O «reservado» devem indiferente, contemplando a articulação da natureza. A natureza desiste de si mesma ao ser contemplada. Ao ser contemplada des-contempla-se e retorna ao indiscriminável. Embora a coexistência consistente se mantenha, a criação só se perpetua em enciclicas ilusórias (embora as suas produtividade seja real).

42. Com a realização da sabedoria perfeita, a virtude e o repouso deixam de exercer o seu charme e de funcionar como causas. A ilusão só existe através do movimento. Na imobilidade a magia sucumbe.

43. É o tempo que se concentra num instante. Da mesma forma é o movimento que se intensifica e se concentra na imobilidade, pois a imobilidade é potência de movimentações.

44. Quando a natureza cessa de agir ela cumpre-se (e comprime-se) e o «reservado» alcança a emancipação incondicionada e interminável.

Tratactus paralogico-sophisticus (em resumo)






1. O mundo é tudo o que se apresenta/ausenta enquanto acaso (casualmente!).

1.1. O mundo é onde acontecem as metamorfoses, é o ornamento que exprime a factualidade e a fractalidade.

1.1.1. Sendo a possibilidade de enunciação dos factos (e dos não-factos) infinita e o número de coisas e particulas existente finita, a «totalidade dos factos» não passa de uma suposição monstruosa que é impensável. O acaso é a determinação/indeterminação das singularidades na não-totalidade. A categorização permite a aproximação às versões do acaso e dá uma certa forma aos nexos de causalidade.
1.1.2. A singularidade das causalidades revela que o acaso atrai nexos ocasionais.
1.1.3. As emergências nos enunciados paralógicos são o Mundo.

1.2. O mundo pode ser decomposto em múltiplas séries.

2. O acaso é o conjunto de morfologias apreensíveis de evidências (representações) metamórficas.

2.0.1. Cada emergência reproduz e reduz a sua frequência / ocorrência dentro de determinada série.

2.0.1.1. As evidências de cada emergência fazem apelo a outras evidências e emergências dentro da mesma série.

2.0.1.2. A acidentalidade torna-se evidente nos nexos seriais, mas a complexidade das emergências não determina nem uma ordem «lógica», nem faz apelo à legitimação do acidental.

3. A imagem congruente do metamórfico representável deixa-se apreender parcialmente nas casualidades dos enunciados. Todo o pensar só é pensar enquanto propensão imagética ou predação enunciante.

4. A expressão do pensar é uma vontade comunicante que pressupõe uma rede de enunciados nem sempre coerentes, aparentemente interligados por uma linguagem e um corpo de imagens. Pensar é accionar metáforas internas. A forma desse campo metamórfico é o estilo.

5. A forma proposicional é uma postura «falsificante-ilusionista» de enunciados tendencialmente simples.

6. A suposição de um conteúdo de verdade pode sêr substituida pela de projecção de plausibilidades. As proposições podem serializar ou sequênciar determinados projectos de plausibilidade.

7. Do que não podemos falar devemos recorrer a algo que não apenas o silêncio.



A ética e a estética não são um, como dizia Wittgenstein no seu tratado. A vida do criador (artista-filósofo: sofista!) deve sêr exemplar. As suas obras também. Mas o conteúdo aparente das obras segue frequentemente atracções que são alheias ao comportamento do produto face a si e ao seu meio. As obras devem expôr a «experiência descondicionante», a liberdade, sem entraves morais. As obras de arte não encontram obstáculos para a concretização da felicidade. A ética, pelo contrário, é a teoria da gestão desses obstáculos. Por outro lado, uma estética implica a sua própria multiplicação. Uma obra pode exigir várias teorias. Deve-se falar de «estéticas». A ética incorre no perigo de confundir-se com a intencionalidade. Mas aí a estética e a ética só podem sêr entendidos com acção teórica. Nesse caso ética e estética fundem-se, menos pela intencionalidade e mais pelas tentativas de imanência, de encarnação. Formam um «corpus» e tentam reconhecer-se nele. Óbviamente que a vida do artista não é alheia à obra e contamina-a parcialmente. Mas isto é um fait-divers. A obra expressa exemplarmente a essêncialidade de que a ética é incapaz. E, dentro de uma certa perspectiva, a obra oferece o artista ao mundo com uma radicalidade de que as biografias só mostram a impotência.

EPICULTURA OU A CULTURA SUPREMA


1. A cultura é onde o prazer se acumula. É o cume indestrutível. A epicultura é o cume dos cumes, opondo a excelência qualitativa à cultura degradante. Nela o atribulado e problemático da hipocultura torna-se apenas complexo e radioso, livre de raiva ou de parcialidades doutrinárias, uma vez que tais atitudes são indícios de fraqueza. Consciente de si e da sua qualidade, o seu movimento é no sentido de uma epicultura ainda mais aprazível, mais intensa, mais complexa e mais graciosa.

2. A arte parece-se com a morte, mas a arte é-nos dada como antídoto à morte. Para a arte a morte é nada, irrealização fantasmagórica, inconsistência. Como a arte é qualquer coisa que persiste para além do bios e do ethos do artista, e da dissolução dos elementos que constituem estes, a arte é sensação que resiste ao des-sensacionalismo da mortalidade. A arte sensacionaliza os seus produtores e os seus consumidores.

3. O valor do prazer alcança a sua expressão na remoção de toda a dor, ao mesmo tempo que se opõe à apatia. O prazer «substancia-se» na sua actualidade. A arte não é como a filosofia uma tendência para a potência, porque a arte é em acto (e apesar de ser em acto potencializa mais do que se fosse potência pura), e a sua temporalidade é este tempo. A arte é ininterrupta e não afecta negativamente os corpos nem as mentes. A arte enriquece sem contrariedades, e é o motor de excelência e de elevação do homem aos seus mais altos limites.

4. Uma vida agradável, por mais sábia, honràvel e justa, é insuficientemente aprazível sem arte. A necessidade da arte advém do suplemento que ela trás pelo facto de existir. É perfeitamente concebível um mundo sem arte, por mais belo, equilibrado, intenso ou perfeito, mas o facto de a arte existir melhora indiscutivelmente essas qualidades.



5. A hipotética inutilidade da arte é assim refutada. O seu porquê não está na satisfação do inferior e frugal mas na realização do superior e perene. Todos os meios para alcançar este estado extremo de felicidade são bons e naturais.

6. Alguns homens pensam que a epicultura é a aquisição de fama e de status, mas a arte não se confunde com uma demonstração de poder. O poder da arte reside exclusivamente no prazer. Só o prazer é um bem natural e seguro, enquanto a fama e o status apelam para situações inseguras e transitórias. A arte é luta, não pela sua visibilidade social, mas pela superação de si mesma, em si mesma e para si mesma. É nisto que a arte se assemelha à natureza.

7. Nenhum prazer autêntico é degradante. O prazer autêntico é força e autonomia. Um vício é apenas o consumo passivo de algo que se parece com o prazer, mas que tende para a destruíção do consumidor, isto é, para a dor e para a morte. O prazer que a arte proporciona aumenta a capacidade de viver, o apetite pela vida e a sua duração.

8. O prazer que a arte proporciona advém da sua interface com a natureza e os desfrutadores. O prazer procura a variedade, como no donjuanismo. Há uma insatisfação de fundo que é o desejo do diverso. Mas o desejo do diverso é das coisas mais desejáveis. Se o prazer não fosse um diferir, a arte seria monotonia. Mas o prazer é a construção de multiplicidades, a diferenciação das diferenças, e através deste processo, um apuramento perceptivo.

9. É esta persistência na experiência e na capacidade diferenciadora que nos livra do medo. Aquele que não experimenta acaba por temer a experimentação. Aquele que teme a diversidade perfere defender a unidade ou a nulidade. O mundo existe não só para que o experimentemos mas também para que lhe adicionemos experiências que aumentem a capacidade de percepção quando o experimentamos. A arte afina a capacidade de experimentar a natureza.

10. A experiencia do mundo tem momentos dolorosos que são compensados pelo prazer. O medo da experiência do mundo é gerado pelo desprazer circunstancial e por alguma inexperiência. A acumulação de medo e de inexperiência leva à rejeição daquilo que nos é dado, do mundo como experiência, assim como da arte que intensifica essa experiência. A epicultura combate esse engano.

11. É pois a ignorância que leva ao obscurantismo anestésico e aos iconoclasmas. A rejeição da arte em nome de «virtudes» corresponde a uma rejeição da intensidade da vida.

12. A arte não deve procurar a legitimidade para além de si mesma e da esfera do prazer. A arte erigida em monumento é uma traição às musas. Toda a burocratização é negação da arte. A arte é desburocratizante. Através da arte o acesso ao prazer é directo, sem intermediários, sem requisitos mínimos e sem autoridades a justificá-lo ou proíbi-lo.



13. Há concepções de prazer (teorias, opiniões, etc.) que flutuam sobre a arte: se essas concepções forem arte aumentam a intensidade; se essas concepções forem burocratizantes limitam e falseiam a arte e diminuem a capacidade de experimentar o prazer.

14. A riqueza que a arte e a natureza oferecem é acessivel e persistente. A riqueza económica e os ideais demasiado abstractos são instáveis. Uns são dificeis de obter e a sua posse pode obstruir os sentidos. Outros entopem os sentidos dogmatizando-os e simplificando-os.

15. O homem que não desfruta do prazer e da arte tem inveja do que os disfruta. Esta inveja leva à injustiça e ao ressentimento.

16. A epicultura é imperturbável, a hipocultura é perturbante.

17. O prazer implica muitas vezes o esforço. O desprazer está na maior parte das vezes ligado à perguiça dos sentidos e da mente.

18. O prazer corporal aumenta depois de um grande esforço. Esse prazer torna-se mais intenso pelo repouso. A satisfação desse repouso provoca um prazer intelectual.

19. Nos momentos mais críticos e perigosos a consciencia de que se viveu o prazer e a epicultura torna esses perigos menos relevantes. Mesmo perante a morte eminente é preferivel ter experimentado o prazer e a arte do que os ter rejeitado.

20. Os limites da vida exigem que tomemos partido contra tudo o que limita a sua experiência.

21. A consciência das sensações pela experiência deixa-nos optar entre as mais desejáveis e as indesejadas.



22. A desobstrução das faculdades mentais através da arte amplia as ambiguidades, diminui a confusão e aumenta a confiança.

23. Quem luta contra as suas sensações luta contra o mundo. Se te concentrares nas tuas sensações, mesmo as mais dolorosas, conseguirás transformá-las e manipulá-las em algo aprazível. É a arte que opera esta transformação.

24. As tuas opiniões, por mais opiniões que sejam, se nasceram de uma experiência de transformação interior são válidas. No entanto deves estar atento às opiniões alheias como possibilidades de experimentação. Mais do que opiniões correctas há opiniões que abrem experiências de vida e outras que as limitam. Segue as opiniões que o levam ao intenso, ao diverso e à discriminação perceptiva.

25. Se uma opinião não for consistente com o teu modus operandi artístico questiona a tua opinião e a tua acção.

26. A consistência da acção e da produção artistica com as teorias deve ser efectiva, mas essa consistência deve ser menos uma relação de causa e de efeito do que uma a interacção entre os pressupostos de uma e da esfera de efeitos e experiências da outra.

27. Se uma atitude artistica conduz à dor própria ou alheia é porque não corresponde a uma necessidade autêntica. Há desejos que elevam e desejos que danificam. A grande arte aprende a distinguir e a praticar os primeiros em deterimento dos segundos

28. Entre todas as virtudes a mais sábia e que melhor assegura a sabedoria é a amizade entre artistas produtivos, a única capaz de assegurar a felicidade pela resposta permanente aos estímulos artísticos.

29. Os que mesmo sendo «artistas» odeiam a arte preferem dizer que ela morreu ou está moribunda. A desconfiança perante tais mortes tão publicitadas é partilhada por aqueles que acreditam na epicultura. A amizade, o entusiasmo e a confiança ilimitada na produção artística não se deixam impressionar por silogismos e teorias que mais não são do que uma demonstração da impotência da hipocultura, mas apenas desta.

30. Há desejos que correspondem a necessidades. Resolver as necessidades torna as carências em prazer. Mas a via do prazer é não só a satisfação dessas necessidades como um suplemento que é como um ornamento que realiza no individual o mundo e o seu direito de ser. Essa ornamentalidade torna o prazer mais intenso. Essa intensidade é a graça, isto é, a exuberância da natureza no seu auge.

31. A naturalização da arte é a não-coacção. A arte exprime a resolução de necessidades que circulam epidermicamente. Essa expressão reflecte-se como um afecto compensador sobre as comunidades que partilham essas necessidades.

32. A epicultura não acredita na resolução integral de todas as necessidades e problemas, porque as necessidades e problemas são de ordem biológica e os organismo necessitam deles «naturalmente» para se autoregenerarem e diversificarem. O que a epicultura luta é para que os problemas sejam menos cruciais e que através do òcio possamos entregar-nos a designíos mais profundos e a uma partilha mais alargada dos prazeres sob o signo da amizade.

33. A epicultura necessita do pudor, da discrição, mas não de segredos. Os segredos implicam a hierarquização de poderes. A confidência faz com que os saberes sejam partilhados e que haja um aumento de complexidade hedónica. A epicultura apenas se contenta com uma «justiça» em que haja reciprocidade entre excelências, por mais divergentes que elas sejam.



34. A epicultura controi-se nas suas adversidades, por si, contra si, num paradigma metamórfico. Mas constroi-se com todos, no não-rebaixamento, no enterlace das disenções, no gestão da diversidade de interesses, no princípio de que o prazer só é prazer se não gerar injustiça física, de direito e de relacionamento. Ao dizermos isto sabemos que a vida é essencialmente conflituosa, mas também sabemos que grande parte dessa conflitualidade é proveniente da burocratização das subjectividades e do desejo de domínio hierarquico.

35. O poder é o prazer de se ter prazer. O reconhecimento do prazer só se faz entre iguais, e o regozijo do prazer alheio provoca um prazer crescente na comunidade (embora também gere invejas). Cada dia se torna mais claro que a cultura é uma rede cada vez mais democrática e sincrética de participações discretas, e que neste imenso processo a participação de cada um é efectiva e inequívoca. Na epicultura a qualidade é em cada eco criativo um eco da multiplicidade de ecos.

tretalogia mista (5)


CAPÍTULO V



Há uma tendência perversa em pensar que as coisas têm ou uma única causa e que essa causa tem eventualmente causa nenhuma. Ignorar a multiplicidade de causas é atirar o intelecto aos crocodilos e convidá-los a que nos devorem.

Não que o mundo seja uma desordem eminente, mas a sua consistência labirintica não o isenta de regularidades.

A ideia de alma só faz sentido em função da mobilidade e da agilidade. A inércia física inerente a toda a matéria torna essa mobilidade mais excitante.

A imaginação não basta. A arte combinatória permite alguma predação, mas é a resistência da matéria aos jogos inócuos que produz a felicidade.

É certo que fujimos a sete pés de uma defenição concisa. O rigor obriga-nos a que justifiquemos as divindades suprimindo-lhes os atributos, e fazendo dessa supressão uma excitante experiência intelectual.

Há um prazer no exercício de geometrias simples com fins hipnóticos. O poder hipnótico dos diagramas é um bom suporte para a meditação, porque o simples é mais fácil de encarar do que o confuso. E o rigor ajuda a dar alternativas ao fluido. A justaposição de um jardim zen e de uma piramide é o que permite contrastar o «eterno» e o efémero.

É certo que a razão procura circunscrever-se aos seus limites como um software que só serve para aquilo. Mas a natureza procura mais do que uma programação que se contrai perante as tautologias que a fundam. É o sentimento de evasão como acrescento ao limitado que a tretalogias mistas oferecem.

A natureza torna-se absoluta na sua negação, adquirindo uma liberdade ilimitada. Mas a natureza procura a nossa erecção, e é através dela que nos tornamos antigos, como se saíssemos de um museu e acordassemos para as musas. É bom estar cá fora.

tetralogia mista (4)


CAPÍTULO IV

Não precisamos de legitimidade para ir à caça. Precisamos é de habilidade e mobilidade. Mais do que um templo o divino é uma caça.

Aquilo de que necessitamos mais é de sensibilidade e caos. Algum bom-senso serve. Mas poucas vezes.

Um corpo é uma coisa que trabalha. Os sofismas estão na horta. Para que haja qualidade o que há tem que ser tangível.

O inatingível é a causa do sofrimento.

As desordens do espirito saem nos espirros. Dizemos santinho, mas também podiamos dizer «vade retro satanás!»

Necessitamos de mudar os nossos hábitos religiosos e por isso pedimos deuses mistos, consistentes, carnudos, teatrais, capazes de descer aos nossos corpos e proporcionar experiências estonteantes, simultaneamente terriveis e doces.

Os deuses são como animais que dançam no vácuo. O nosso dever é assimilar as suas capacidades de dançarinos. Devemos aproximar-nos da divindade como se o ornamento da dança fosse um dos elementos mais pro-vocantes do mundo, porque o mundo precisa de causas artísticas e afrodisiacas.

tretalogia mista (3)


CAPÍTULO III


Trata-se de alicerçar a generosidade cósmica em metáforas culinárias.

A gestão do mundo está entregue a uma cooperativa operária. Por isso mesmo ele não dá lucro.

Deus declara que a natureza é sagrada como uma vaca. Eu perco o sentido de humor sempre que vejo alguém a rezar.

Haverá a hipótese séria de rezar às gargalhadas?

O Incriado é o Mal-criado.

A matéria é Jesus. As coisas são jesuítas.

A única justificação para a fatalidade é haver oráculos.

O sentido trata-se de uma mera coincidência entre o que observamos e aquilo com quem gostariamos de ir para a cama.

Sem o desconhecido o desejo não valeria um pentelho.

É graças à hibernação que podemos fazer coincidir o Intelecto com Deus ou a Vacuídade.

Os estupidos só são capazes de repetir. Repetem e repetem. Tornam-se crentres zelosos ou comunistas ressentidos. Amam o próximo com indignação. O que não deixa de ser curioso.

O misticismo inibe. Temos vergonha de ser misticos porque isso nos parece uma cedência ao mau design. Friques e pirosos.

Mas não podemos confundir as cópias com o original. Os misticos mergulham em piscinas negras. Os parolos que consomem misticismo acham que tudo é felicidade e àgua benta (presunçosa) com coelhinhos e arco-iris.

Por vezes sacrificamos o Intelecto e cai-nos um raio em cima.

Os que chegam à experiência mistica pela via positiva são todos voltados para o simbólico e para as hierarquias de anjos. Os que chegam pela negativa usam o simbólico porque desconfiam dele. O simbólico é a cabeleira postiça da experiência mistica.

tetralogia mista (2)


CAPÍTULO II


Tentamos unir-nos ao que quer que seja. Mais misturados. Mais mistos e mais anexos de qualquer essência.

Tapamos os olhos porque a beleza persegue-nos de helicóptero.

Levamos as visões ao mecânico. Ele diz que demora tempo a concertá-las porque as peças têm que vir do estrangeiro.

A verdade é sempre uma tradução errada.

É o exagero dos detalhes que nos conduz à abstracção.

No minete é que está a Graça Divina.

Mais luz? Mais sombra? Menos impostos?

Só me sinto bem no cabeleireiro lendo Goethe.

Nem todos os deuses são carecas mas a maior parte deles é velho.

Os sábios sabem que depois das negações tudo fica em àguas de bacalhau.

A beatitude é isso: àguas de bacalhau.

TRETALOGIA MISTA (1)

por Pafnúcio o Páriofajita




CAPÍTULO I


O que é o obscurecimento divino?

Questão babosa? Consistência triádica? Mergulho no supernatural? Complexidade intelectual? Conhecimento exaustivo?

Como guiar os homeostéticos com um holofote de bolso à suprema iluminação?

O homeostético desconfia (mas também confia) das suas intuições selvagens e como tal procura alicerces nos enunciados rigorosos de uma lógica post-paradoxal.

Conhecimentos místicos com muitos tan-tans. Sim! Exame crítico do incompreensível? Idem aspas! Exaltação do conhecível e do conhecimento mundano e similares. Pois claro!

Uma boa tretalogia deve ser mista. Sem sincretismo dos vários modos de conhecimento o escrutinamento e o usufruto hedónico do mundo e da arte é apenas parcial. E, acrescento, ilusório!

Dirija o seu conhecimento para mistérios mais puros, sem roupa suja. Pendure-se numa concentração que absorva o absoluto como uma esponja. Não tema o incompreensível! Com os nossos detergentes intelectuais depressa se tornará não só detergível como branco e límpido.

Se você gosta de silêncios secretos e das ténebras que vão brilhando, ou de abismos intelectuais nós temos as melhores receitas, e saberemos carregá-lo de energias sobreabundantes que cegarão as mais acanhadas ignorâncias.

Deixe que a glória invísivel de Deus ou do Vazio (consoante o seu gosto) se apodere de si e o penetre e descobrirá uma beleza impalpável e invisível que envolve as coisas palpáveis e visíveis.



Faça muitos exercícios místicos e não só. Seja misto desde as suas unhas negras até às sumas teológicas e ateológicas que estão adormecidas em si. Seja um Einstein de tudo. Já pensou bem nisto?

É certo que neste mundo tudo é ser e não-ser, sensibilidade e intelecto, vazio e inconsistência. Mas a faixa que lhe exigimos é perfeitamente atingível. Ser menos que um génio é deixar-se atrasar! Para já deve começar por admitir que o Absoluto é você, sem caír em convencimentos idiotas. Considere-se o Absoluto com o máximo de humildade. Constate ao mesmo tempo que isso é a Suprema Humilhação.




As trevas divinas estão lá para o ajudar a renunciar aos seus objectivos de carácácá e à sua subjectividade estafada. Há alguma super-hiper-realidade para além de si? Não!

Tem demasiadas contradições num sururu a perturbar-lhe o dia a dia? Pois bem. aceite-as. Experimente uma série de tretotécnicas que lhe tornarão cada segundo insuportável. Você será o pária dos párias. A sua respiração esmaga-o. O próprio suicídio será pouco para o aliviar destes tormentos. Ou então experimente as tretotécnicas aprazíveis, com intensidade e persistência. Se o fizer com um espirito leviano o Universo ser-lhe-á indiferente! Você apenas quer ser o Mestre e o Escravo, num grande orgasmo intra-extra-cósmico sado-masoquista.

O caminho mais rápido é a autoestrada das negações. Guie com prudência?

Aquele que sucumbe a uma desprivação total percebe que nem a linguagem o segura. As distinções acodem-lhe apenas através dos sentidos como ondas que vão e vêm. Os deuses ausentam-se. As palavras tornam-se incompreensíveis e musicais.

Porém aquele que caminha no deserto tem que se segurar às palavras como pilares que sustentam o céu e que abrem as portas para a desmesura do desconhecido. Deus é uma tenda. Todo ele é rigor e desmesura.

O divino também se resguarda com as suas minúcias, teológicas ou ateológicas.

A negação entranha-se no humano como uma fera apocaliptica.

A negação acaba por devorar Deus. Quando voltamos a beber os copos de àgua é porque tudo já passou. Antes, os monges zen pareciam idiotas. Depois tudo se tornou maravilhoso. Finalmente os monges zen voltaram a ser idiotas.

Fomos todos feitos para ser purificados com violência. Consola-nos a possibilidade de existir uma ternura transcendente, mas será que há mesmo?

O divino é só o multiplo. A unidade é demasiado profana. Faz parte dos enunciados académicos. E das teses atrasadas mentais.

Deus contempla os homens com fastio. A morte ânseia-os com dentes caninos. A eternidade está putrefacta.



O homeostético gosta do desconhecido como de uma pastilha elástica. No ínicio é açucarado, finalmente converte-se em mastigação. É dessa mastigação que nascem os poemas, como pastéis primitivos, verdadeiros empadões em que se sente o autêntico sabor a bufalo.

O homeostético cai pela sua inactividade abaixo.

O sagrado é quando se desdobra o gardanapo e se sente a textura da iguana. A inactividade eleva os homens ao quadrado. Passamos dos quatro membros aos dezasseis e depressa nos apercebemos que não somos muito diferentes de Shiva.

A VEXAÇÃO DA NÃO-MENTE

1. À natureza da mente falta quer a mente quer a natureza, embora as duas estejam necessáriamente a mais.



2. A mente é uma descarregadora embriagada.

3. Não há um único fenómeno que não seja essencial, evidente e paradoxal.

4. Nada mais superfluo e decorativo e necessário do que as essências.

5. Há que descascar, descartar e decorar antes de purificar.

6. Procura as extremidades onde encontrarás a ponta do fio que te deixará desembaraçar a meada. Mas provávelmente não há extremidades. Só embaraçamento.

7. O que é inactivo leva as coisas a manifestarem-se como se estivessem mascaradas de uma quietude brilhante.

8. Muitos falam da vacuídade para que as suas doutrinas fiquem ainda mais confusas e daí nasça um prestigio delirante e a legitimidade da perplexidade.

9. A diferença nula entre a latrina e o dharma.

10. As circunstâncias tornam-se mais e mais penetrantes de vexação em vexação.

11. Espontâneamente vindo e indo, como se quizesse falsificar o acaso.

12. O uso solicita o abuso e quase se esgota nele.

13. Se queres fazer do teu corpo um templo tens que tornar a mente límpida.

14. A pureza da mente obtem-se através da conspurcação física.

15. A impureza da mente é um estigma dos puritanos.

16. Não se pode cultivar a vacuídade da mente sem a mente. Não se pode cultivar a plenitude da não-mente sem a carne do mundo.

17. O não-saber é o sumo do saber e não a rejeição deste.

18. O maravilhoso ainda é o «quase», não a overdose.

19. Agarrar-se à ilusão como uma gibóia? Ou uma boia?

20. Depois do samadhi imóvel, um samadhi feito de modulações e de travestimentos.

21. O nirvana é um esquecimento imperdoável da musicalidade.

22. Um deus que não dance torna-se rápidamente obsoleto.

23. As garras da imobilidade...



24. Esta vida é um segredo demasiado complexo que redime a morte vagamente iluminada do universo.

25. A natureza é paródia das divindades soberanas.

26. Um princípio para parecer elevado tem que se pôr em bicos dos pés, mas para ser efectivamente elevado tem que mergulhar nos mais obscuros subterrâneos.

27. Precisamos de explicações como de divinas quecas.

28. É necessário partir o espelho da sabedoria para nos apercebermos de que esta é composta de fragmentos espelhantes.

29. O pensamento vai de vexação em vexação até não encontrar nada a que se vexar – confunde-se justamente com o mundo.

30. O sagrado é uma abundância que nasce de uma intenção/atenção ascética.

31. Desobstruir – uma prática para além de palavra de ordem.

32. «A roda do samsara produz a lama de onde brota o nirvana» – é uma afirmação infantil. Mas será inútil?

33. O brilho das ténebras é o resultado de um polimento desrazoável – procura-se o obscuro com uma vertigem psicadélica.

34. Só a diferença aconchega as ambições mentais.

35. A identidade mostra um explendor vazio que paira não se sabe sobre o quê.

36. As refutações originam um prazer de pastar no passado já que tiram o prazer ao presente. A rememoração é uma consequência de negações que geram o prazer equívoco da inactualidade.

37. A ilusão de que nem o passado nem o presente nem o futuro são é deliciosamente embriagante.

38. A lógica da Vacuídade, nos seus axiomas mais radicais e paradoxantes, tem a eficácia de um opiácio.



39. Precisamos de boleias messianicas para contemplar soberanamente a história.

40. A causa das vexações é a iminente não-existência – a existência da desistência?

41. A dádiva mantém os deuses numa hierarquia lucrativa. A cessação das dádivas cessa a glória. Nunca houve nada a receber ou a dar. A não ser que...

42. Forja perceitos que pratiques numa arrasante sedução.

43. Torna as tuas opiniões mais musicais.

44. Os sentimentos não conduzem à iluminação porque já são iluminados.

45. Os ganhos e as perdas são as faces de uma mesmo moeda embora ela caia com mais frequência para um lado do que para o outro.

46. Dizer que a iluminação procede de uma dupla refutação é como fazer nascer as coisas de enunciados lógicos. Estranha magia!...

47. Para escutarmos correctamente o nosso daimon deveriamos ter os ouvidos ainda mais limpos.

48. Falar de palavras vazias é ignorar quer a carne quer o esqueleto.

49. As ideias tentam embriagar-se da sua extinção como de uma apoteose idiota.

50. Os turbilhões mentais deixam-se controlar pela meditação. Esta constatação não implica que sejam abolidos, mas apenas que sejam transformados.

51. A mente aquietar-se-á sobretudo nas circunstâncias menos ideais.

52. A graça é mais importante que a dedução.

53. Procuramos a agitação e a impureza porque nos proporcionam o extase que a «des-mentalização» dissimuladamente solicita.

54. As formas não querem descansar, por mais perfeitas que sejam.

55. Falar de causalidade é como cacarejar em frente de uma serpente.

56. A causa das causas não se cala.

57. Deduzir que há só uma causa das causas a partir de dados firmes não me garante que haja uma só causa. Há sempre a hipóteses de haver várias causas, de não haver nenhuma causa, e de tudo se entre-causar.

58. A morte é a causalidade na cama.

59. As circunstâncias adversas proporcionam as maiores surpresas.

60. Portas para a dor sair são bem úteis.

61. As circunstâncias estão fundamentalmente cheias de relações incestuosas.




62. A iluminação é o incesto numa versão light e abstracta.

63. A calma da mente não dá para acalmar o resto do mundo, por mais contagiante que seja.

64. O altruísmo incita convincentemente ao assassinato.

65. Por mais errados que estejam os fenómenos estes podem levar-nos a práticas correctas.

66. Fazer qualquer coisa, como se houvesse reciprocidade, mesmo que esta seja infíma.

67. A natureza renasce-se todos os dias e através dela algo remanesce para além do tempo e suas morfologias desperdiçadas.

68. A virtude é a «formação» e a «deformação», não a Forma ou a sua aniquilação... será necessário estar sempre a dizê-lo?

Gymnophilia




1. Só se pode amar absolutamente uma só coisa, por mais múltipla que ela seja. Essa coisa é intensificação, extase, velocidade-voracidade, ser, libertação (samadhi, «nirvana») etc.
2. Pode-se amar parcialmente e com bastante intensidade várias coisas, embora de um modo desigual. O amor entre as várias coisas pode ser docemente confluente ou violentamente concorrente.
3. A gymnophilia articula o amor absoluto com os amores parciais.
4. Os amores parciais não são uma forma degradada do amor absoluto, mas são a necessária imperfeição que faz com que a intensidade se queira ainda mais intensa.
5. O Amor (o amor absoluto) para se expandir (ou «extinguir) necessita de se teatralizar. O Ser teatraliza-se na Doxa. A vacuídade, ou o absoluto, teatralizam-se na ilusão.
6. Os amores parciais fazem parte dessa comédia-tragédia-cosmética.

tratados tretotéricos

Há alguns anos atrás tentei sistematizar o tretoterismo: este é o primeiros de uma série de tratados, o mais sistemático e o menos divertido.

















Tratado das causas e não-causas homeostéticas-tretatéricas




(SEQUÊNCIA DE ACORDO COM A ORDEM NÚMÈRICA)



ANESTESIS

0 = 0

1. Não há causalidade
2. Só «há» nada: nem absoluto, nem relativo, nem vacuídade
3. Qualquer quantidade ou qualidade é ilusão e sem consistência
4. Não há essências nem sensações, nem percepções, nem inferências
5. Os métodos de «libertação» (embora esta seja uma ilusão) são a des-entificação, a crítica, a negação (vulgatas budistas).
6. O objectivo é a An-estesia: a ausência quer de dor quer de prazer.


MONOESTESIS


0/0 = 1

Da relação do 0 consigo mesmo nasce a ilusão de que «existe» um Universo e uma Unidade. Eventualmente também originará uma causa das causas. A equação 0/0 = 1 é clara. É a Monoestesia e o Henofisismo correspondente. Tudo é absolutamente identico a si próprio. Uniformidade, plenitude, totalidade, imobilidade, etc.


DIESTESIAS

1 + (-1) = «1»

A constatação da unidade provoca uma reacção de figuração de uma hipotética não-existência. A nulidade absoluta da anestesia é mais dificil de admitir do que uma identidade negativa. E mesmo que fosse suposto pensar o 0 isso implicaria o pressuposto de que há algo capaz de anular o 1, isto é, o -1.
1. Se 0 e se 1 fazem sentido, logo: 1 + x = 0. Então x = -1.
2. Se o 0 não faz sentido (só há quantidade porque o não-quantitativo não é perceptível), e se o 1 existe, então ele é a soma das contrariedades internas. A equação é 1 + -1 = «1», de forma a que este «1» inclua as contrariedades internas (como em heráclito). É o princípio da Paradoxa.
3. O «1» resultante é Forma-Informe (purusha-prakriti), Totalidade-Multiplicidade, Positivo-Negativo, etc.











DUOESTESIA OU TRIESTESIA


1 + -1 = 2 ou 1 + -1 + 0 = 3

1. A unidade complexa enunciada pela diestesia pode fazer surgir a tentação binária e trenária, mesmo que esta venha, numa tentativa de salvamento, a ser re-identificada com a própria unidade.
2. Todas as classificações de contrários (binárias), com ou sem exclusão do contrariante são deste tipo, ainda que estes possam ser concebidos como complementaridade, «resposta», etc., ou opostos radicais. Exemplo: Yang/yin
3. Mais complexa é a versão trenária porque admite um princípio neutro, requilibrante (homeostesico) que medeia e regula as clivagens entre opostos. Exemplo: 3 gunas



DOXA

6 = 9 = 0

A Doxa é a zona central de toda a Homeostesia porque é o que é dado. Torna clara a identidade entre a Nulitude (o 0) e os principios binários e trenários.
A Doxa é o que é dado. É a krisis. Só ela permite discernir os jogos que formam as concepções de causas.
A Doxa é: opinião, aparência, ilusão, plausibilidade, glória. Ou: o discernível, o possível, o opinativo.
A Doxa é a soma do 0 (nihil), das várias versões da Unidade, das suas estratégias de figuração de causalidade (o 2 e o 3) e da Multiplicidade (-1?)



DOXAS

6 = 0

Desdobramento do pensamento binário. 5 sólidos platónicos mais a esfera (sólido 0). I Ching. Ângulo Recto. Etc.

9 = 0

Trifurcações trenárias. Triangularização «equilátera». Taixuangxi. Tao Te King, Divina Comédia, etc.

0 = 0

Bolismo, informalismo, vacuísmo (minimalização), nihilismo relativo. Neste caso a equação mais correcta será 0 = 0 + (-∞ + ∞)






SUBDOXAS OU ESTILOS


Todos os cruzamentos de doxas ou de regras com algum grau de precisão fazem nascer aquilo a que chamamos estilos, isto é, uma programação na produção de formas, visões do mundo e perspectivas de causalidade.

As Doxas são os príncipios geradores basicos e imutáveis. Os Estilos, pelo contrário, estão sugeitos à degradação e ao cansaço. Este cansaço é proporcional à ansiedade e à variação «mediática» (considerando este termo quer como meio biológico quer como o conjunto de sinais artificiais).

A degradabilidade está dependente da habitual classificação em 4 tempos, embora esta seja simplistas:
1. Emergência. Formas simples, vulgo arcaísmo. Preto e branco ou castanhos ou cores primárias.
2. Complexidade ascendente até à acmé. Classismo. Gradações entre côres ou claro-escuro. Busca de ilusão realista.
3. Complexidade decrescente e cansaço. Combinação de claro-escuro com gradações entre côres (mesclados). Nostalgia do arcaísmo. Paródia. Fantasia. Prazer no anómalo. Maneirismo.
4. Desagregação e fusão das formas. Exaltação da energia ou da aniquilação. Barroco e rococó. Propensão para cores escuras (nocturnidade ou tenebrismo) ou para côres pálidas (pastel).


HOMEOSTÉTICA


A homeostética promove a variação e o sincretismo, o regresso às doxas e a evasão destas, a circulação entre a «anestesia» e os Estilos. É a consciência como voracidade predadora e intensificação biológica. A programação das causas é uma estética. Enquanto organismo vivo a homeostética acredita que o exercicio das doxas proporciona uma melhoria quer do software quer do hardware. Uma boa programação melhora o «corpo» e vice-versa. Os métodos tradicionais são as técnicas post-paradoxais (ver a doxa na paradoxa e o contrário), infracriptográficas (há um antes antes do genealógico que está em progressão no tempo e no espalço), e transmenipeicas (todo o enunciado é teatral e o seu fundo é excessivo e cómico). A função da transmenipeia é elimiar o poder «superfluo» (des-burocratizar relações de forças), a da «doxa-paradoxa» é afinar a «percepção» das configurações lógicas e ultrapassar as suas clivagens, da infracriptografia é a de entender as metamorfoses e o que as faz mover.

Saturday, August 04, 2007

tretotécnicas


TRETOTECNICAS (ou o Anti-bhijnabhairavatantra)



Estas técnicas destinam-se a ser exercitadas por aqueles que buscam o sofrimento intenso e que não estão para entrar em tréguas com as mentiras que estruturam o mundo e o sujeito. É òbvio que há uma alternativa, menos nobre, que consiste em pactuar com as ilusões e a ingenuidade. Mas será que há escolha possível?

Hildegardo Caronte





1. Desconcentra-te! Tenta não sentir a respiração ou o intervalo entre respirações sucessivas! Considera esse momento denso e obscuro. Deita o ar fora e sente o alívio de já teres respirado e o horror de te preparares para uma nova respiração – o doce pânico existêncial!

2. Usa a respiração como uma bomba. Faz explodir o ar em baixo. Esvazia-te violentamente até que nenhum ar subsista – destroi-te!

3. Ou, sempre que a inspiração e expiração se fundem, sente nessa confusão de sopros mal digeridos o cansaço!

4. Ou, quando respiração parece que foi toda evacuada para fora ou te sentes a rebentar como um balão, sente essa vertigem terminal que te esmaga – é tão fácil como fazer milagres!

5. Considera a tua intimidade como uma tempestade assolada por raios subindo e descendo pela medula entre o ânus e o cérebro. Considera a tua existência como uma anomalia.

6. Ou nos intersticios desse sentir caótico, deixa-te fulminar por dolorosos choques elétricos!

7. Sente o alfabeto manipulando a tua consciência. As palavras que te pensam são compostas por letras destituídas de quaisquer sentimentos. Sente essa insensibilidade de não seres mais do que sons ou letras, e então, considerando a artificialidade das subtilezas compreende que foste apanhado na ratoeira!

8. Evita a atenção entre sobrancelhas. Deixa os pensamentos ainda mais indomáveis e destruídores. E que uma avalanche de dúvidas te faça remoer e remoer de uma ponta à outra do corpo, inundando-te como ténebras.

9. Ou, imagina que és um horrível degradé new age. Deixa-te derreter no seio desse kitsch cósmico e sente o enjouo das imagens comprimindo-te contra uma parede até ficares completamente prensado. Sente que és mais falso do que tudo o que se imaginou!

10. Fecha com força os olhos e examina-te em todos os detalhes perversos. A tua essência é uma fraude que se tenta aldrabar a si própria.

11. Deixa que um sentimento de opressão surja do centro do teu corpo, como um vulcão medonho. Em tais pântanos de lava sê um vil retornado.

12. Fecha-te a sete chaves nos subterrâneos em que já não há segredos, e de repente imagina que nunca houve nem haverá mundo lá fora, e através desse espaço torna-te voluntáriamente excluído!

13. Os olhos geram pesadelos que semeiam outros pesadelos. A luminosidade é uma fantasmagoria que destroça o coração. Tem a certeza da intrincada confusão do mundo!

14. Banha-te na cacofonia que te rodeia, como uma soma de sons descontinuos e desconexos. Abre bem as orelhas orelhas e ouve o ruído dos ruídos.

15. Vocifera um som, como o b-u-m!!! Estrepitosamente. Tal como o som, entra no arrepio da barulheira, num inferno.

16. Examina a gradação de cada sílaba, como algo desporvido de interesse, e então compreenderás que te arrastas na fala como em algo sonâmbulo.

17. Quando escutares sirenes tenta ampliar o som arrepiante até que uma surdez central se apodere da tua escuta. E assim permanecerás desinteressadamente, numa total ausência.

18. Resmunga, refila, grita, e repara que até os teus sentimentos mais intímos se desvanecem nessa densidade ruídosa.

19. Imagina o espírito como uma mosca à volta de ti mesmo até que o universo inteiro se vulgariza.

20. Resiste a todo o bem estar que te quer enganar pois não passa de uma armadilha para te tornares mais burocrático.

21. Utiliza toda a tua intiligência ao serviço de uma idiotia como o «inexprimível», e nessa inutilidade regozija-te com o facto de o fazeres com o máximo de cinismo!

22. Considera toda a tentativa de saíres do marasmo em que te encontras como um acréscimo de sufoco.

23. Sente a nhanha de que és feito como que saturada de tretas cósmicas.

24. Supõe que és a retrete onde o mundo inteiro vem lançar os seus fedorentos dejectos, e que essa coisa a sente e se enche!

25. Ó amaldiçoado, ao sentires o que quer que seja repara como és um cozinhado intrincado de mal condimentados sentimentalismos.

26. És uma diarreia de estupidez que se julga intiligente – lesma evasiva.

27. Quando entretido nas tarefas mundanas, pára um pouco, sustém a respiração e descobre que por mais que a tua vida varie as coisas acontecem e surgem como se viessem repetitivamente.

28. Atenta ao incêndio que se levanta doloroso nas partes inferiores do corpo, e, como se estivesses num inferno, sente que esse fogo que te vai consumir, nunca cessará! Então terás inveja das cinzas.

29. Pensa no mundo e coloca-te no papel de um deus superior. Garanto-te que é desse ponto de vista que a vida é sobretudo um tédio.

30. Sente as qualidades rancorosas e o prazer precário que obtens de actos destrutivos e de como até a delicadesa que arrasas é enjoativa.

31. A inexistência e a morte são preferíveis? E dão-te algum garante? Terás essa possibilidade de te escapares? Não serão elas caminhos para algo ainda pior? Não terás como garantido que nunca te poderás escapar?

32. Tudo flui de uma coisa para outra incapaz de convergir definitivamente nalgum corpo. Os mundos são instáveis. Os deuses instáveis. A sabedoria instável. Há seres (pobres pretenciosos!) que têm a pretensão de ter ultrapassado essa instabilidade. Mas terão alguma garantia de uma definitiva estabilidade? Òbviamente que não. Assusta-te com toda a instabilidade!

33. Ó desenxabido, entretem-te com o jogo do universo como numa estopada porque já não há escandalo ou fofoca que te anime. Então até as mais excitantes notícias te provocará na pele uma alergia infinita.

34. Olhe como que por cima do sobreolho sem condescência por tudo o que seja abaixo da excelência (se é que ela existe!). Nestes momentos rigorosos torna-te depreciativo!

35. Retira-te para um lugar espaçoso, vasto, uma natureza o mais pura e nua possível, sem casas ou àrvores. Chega imediatamente a depressão!

36. Ò criatura amarga, medita no saber e no não saber, no existir e no não existir. Deixa então ambos de lado e constata a inutilidade de tais meditações.

37. Todos os objectos estão a mais e só atrapalham. Torna-te nesses objectos, como se eles fossem vítimas de magia negra. Ò amaldiçoado!

38. Caos da sensações com a presença atarantada de seres um zombie.

39. Com o máximo de ressentimento, concentra-te na junção de duas respirações e sente a catástrofe!

40. Considera que o interior do teu corpo é fundamentalmente conspurcação!

41. Ao ires para a cama com a mais doce princesa, despacha-te depressa dessa hipócrita queca.

42. Pára as portas dos sentidos ao sentires que és uma criatura explorada que rasteja como uma formiga. Nunca mais!

43. No início do acto sexual, tem em atenção a ânsiedade que te move, e, após o orgasmo, nas cinzas desse acto, em vez de te sentires alíviado, percebes que chegou a inevitável ângustia do cigarro. Mesmo que não fumes!

44. Durante o frenesim dos sentidos, na agitação que precede o orgasmo descobre que estás a ser meramente mecânico.

45. Tenta esquecer os corpos, e os languidos abraços, e o insuportável fedor.

46. Quando por surpresa encontras um velho amigo que não vias há muito tempo, o sentimento de alegria muda-se rápidamemte para o de desfazamento.

47. Quando comeres ou beberes, analisa meticulosamente os sabores dos alimentos e bebidas. Então tudo o que parecia ser sensação intensa torna-se classificação, categoria, e fixa-se em nomes inuteis, totalmente inócuos.

48. Ó tu, que já nem te atreves a olhar para o espelho, tenta para compensar cantar com intensidade e sentimento a mais bela melodia. E grava-a logo. Ao escutá-la não és só tu que és um desastre a cantar, é o universo que regressa desafinado!

49. Sempre que algo te satisfaça mínimamente tem a certeza de que essa será a última vez!

50. Mesmo quando o sono te domina e o teu corpo está incapaz do que quer que seja sabes de antemão que passarás a noite a ruminar em pensamentos escarafunchosos, porque a realidade das realidades é a insónia!

51. No inverno, quando estás isolado no meio de uma tempestade e num sítio ermo a borrares-te de medo, absorve num só trago essa escabrosa solidão!

52. Estás na fossa e impotente? Acossado, mantém-te nessa onda. De olhar fixo, sem pestanejar. Como um verme baboso prestes a ser definitivamente pisado.

53. De repente pés e mãos estão fora do controlo. Nem as nádegas ou o tronco te servem de apoio. O pânico apodera-se de ti, e acontece o inadiável desmaio!

54. Numa posição díficil, com todas as partes do corpo tensas e prestes a explodir, és capaz de matar qualquer pessoa porque estás profundamente raivoso!

55. Vê como se fosse a última vez que vez alguma coisa um gajo nojento ou um objeto kitsch.

56. Com a boca ligeiramente aberta, mantem-te com a lingua na greta. O cheiro a sexo e a mijo torna o teu acto mais feroz e contudente: GRRRRRRR!!!

57. Deitado na cama ou assente num sofá falta-te força para o que quer que seja ou interesses que te façam mover uma palha. É a insustentável moleza!

58. Num veículo em movimento, sentes o balanço e as guinadas como atentados à tua integridade e aos teus rítmos biológicos. E, sem mais nem menos acontece o vómito!

59. Contemplando um tufão avassalador tudo é a agitação traumatizante!

60. A energia que parece mover o Universo, assim como os teus mais íntimos pensamentos é essencialmente opacidade.

61. Ao tentares dormi e ao tentares manteres-te acordado, conhece-te a ti mesmo como indisposição.

62. Descobre, após o sacrificio de uma vida, que trabalhaste na fórmula errada. Assimé toda a ideologia, religião ou ciência.

63. A obscuridade procura-te para te assimilar com crueldade!

64. Segue depressa os teus piores impulsos. Nada pode parar os erros inevitáveis.

65. Concentra-te no b-u-m desagradável e sente o uivo arrepiante do u.

66. Faz uma careta com desprezo e diz FFF. Experimenta de seguida um PPPP: o esforço!

67. Sente intimamente o cansaço de todos os sentidos.

68. Sempre que vislumbrares alguma coisa bela ou delicada, sê intencionalmente rude.

69. Sensação: Maus pensamentos? Um vazio egoista? A asfixiante intimidade com a ausência de ti mesmo!

70. As ilusões só geram desilusão. As cores enervam. Toda a classificação é uma perca de tempo.

71. Se algum desejo te alegra, examina-o com atenção. Então, sem perder tempo, reprime-o.

72. O desejo e a beleza só existem para disfarçar o horror radical que sustenta as coisas. Queres ser exacto? Dissolve-te no feio.

73. A que é que o desejo pode levar, para além de terriveis consequências materiais? À estupidificação

74. Todas as percepções particulares, todos os momentos mais preciosos, desaparecem imediatamente mal são vislumbrados. Tudo está condenado ao esquecimento e à ignorância.

75. Na melhor das hipóteses não somos criaturas isoladas mas apenas seres pegajosos. O que nos solidariza uns com os outros é essa consistência babosa. Mesmo os belos sentimentos amorosos não passam de uma versão sofisticada de sermos uns colas e carentes.

76. Na violência dos desejos há algo evidente: estás totalmente perturbado!

77. Este universo é uma selva infernal. O único consolo é o de saberes que rápidamente serás devorado.

78. Ó, adepto. Fica sabendo que todo o conhecimento é conhecimento do mal. Prazer e dor são duas versões de algo intrinsecamente maléfico. Sucumbe à necessidade do mal. Torna-te maléfico!

79. O teu corpo é um acessório mediocre da tua má consciência. Como é que podes praticar o que quer que seja sem tortura e ressentimento?

80. Objectos e desejos destrem-se uns aos outros. O pior que te pode acontecer é satisfazeres-te com um objecto ou um desejo. O que é que te pode acontecer depois? Ah! O desinteresse!

81. A depreciação dos objetos é o teu exercício espiritual preferido. Depois de depreciares o mundo tem a ousadia do grande passo, depreciando Deus, o Vazio, a Revolução ou o que quer que seja. E constatarás que nada mais existe para além dessa tirânica depreciação!

82. Imagina que a consciencia alheia é a tua consciência, e que a tua intimidade é comum, desinteressante, escarafunchosa como todas. És o cliché que sempre criticaste, uma subespécie de vulgaridade.

83. Não penses em coisa nenhuma. Será que algo te motiva a agir ou pensar ou outra coisa qualquer. Torna-te insignificante através da falta de vontade!

84. Bem podes acreditar que és relativo, ignorante, contingente, acessório.

85. Poderiamos dizer que fazemos parte de algum elemento que está presente em tudo. Mas nem isso. O único que nos justifica é a repugnância pela universalidade.

86. Mexe-te o menos possível, de tal forma a que o mínimo esforço te seja insuportável. Compreenderás então que sempre foste um atrito!

87. O conhecimento foge de ti a sete pés. Sentes-te fraco, desmoralizado, incapaz e acima de tudo, um fardo para os outros.

88. Alguém te tenta impingir uma treta mística acenando com chavões e metáforas gastas: fecha-lhe a porta imediatamente. Toda a «libertação» mais não é do que o espírito de seita!

89. Tapa os ouvidos e fecha os olhos. Ouves os sons desagradáveis do interior. Agora abre-os. A confusão e gritaria da exterioridade. O único som que te satisfaria seria a surdez!

90. Parece-te maravilhoso? Ainda consegues conceber uma imagem ou experiência maravilhosa? Ò, pobre criatura ingénua, até o maravilhoso se gasta e tem os seus podres!

91. Estás instável. Vagueias sem expectativas. Poderia consolar-te dizendo que há um aqui e um agora. Mas se te concentrares um pouco não consegues agarrar nem um aqui nem um agora. Outra vez o instável!

92. Algo te manobra e te faz funcionar e que tu não és capaz sequer de controlar. Claro. És vampirizado pelo teu inconsciente!

93. Sempre que uma situação difícil e crítica se avizinha não deixes de lado a única coisa que possuis: o nervosismo!

94. Há uma consolação para as situações mais difíceis: tudo se transforma. É claro que se transforma, mas para ainda pior!

95. Olha para um objecto intensamente. Depois retira a tua concentração. E passa a outra coisa qualquer. Sempre desinteressante!

96. A devoção escraviza!

97. Sente que há um objecto atrás de ti. Não sabes o que é, mas ele projecta uma sombra sobre todos os teus actos, por mais indefenivel ou ausente que seja. Passarás a vida a fujir de algo que ignoras. Ah, a insustentável e oprimente perseguição.

98. A impureza dos teus pensamentos e ideias não é mais do que um suburbio da impureza cósmica. Todas as doutrinas estão conspurcadas. Concentra-te na realidade como numa inextricável conspurcação!.

99. A tua consciência que te dá como algo garantido e inevitável neste mundo está decididamente a mais!

100. Sê desigualmente! Trata os estranhos com indulgência! Esquece os amigos! Pensa na desonra que é ter a tua intragável companhia.

101. Quando encontrares alguém na rua gaba-te de todas as proezas que conseguires imaginar, e exagera de tal maneira a que ele se aperceba da mentira e te tente espézinhar psicológicamente.

102. Supõe que buscas algo, embora não saibas bem o quê, e que a tua necessidade de encontrar esse objecto indefinido e indispensável te leva a um extremo estado de baralhação.

103. Desintegra-te com o espaço, insuportávelente, instantaneanente, humilhantemente.

104. Tudo o que tu possas tentar fazer de realmente novo só te diz: inexperiência!

105. Confunde o teu nome com outros nomes, e através desta confusão, o esquecimento!

106. Eu não sou nada. Isto é não é meu. Este aqui nem sequer é este. Ò detestável, nessa conformista constatação repara como és limitado!

107. Esta vaga consciência é o espírito da desorientação que mereces. Deixa de ser.

108. Estás aqui numa esfera de repetição, repetição, repetição. Através da repetição torna-te ainda mais relutante ao que tens sido.

109. Como o cuco destroi ninhadas alheias, sê o estranho destruídor da grande familia a que não pertences tornando cada um dos teus actos num atentado à realidade.

110. Libertação e escravidão não passam de palavras para assustar medricas. Nelas perecem aqueles que nelas acreditam. Este universo apenas reflecte bassamente o que nem merece ser reflectido. Assim como as ondas destroçam as imagens que reflectem assim entende o teu destino como uma escravidão a um amo ignoto.

111. Cada coisa semeia ignorância. Quanto mais percebemos, mais somos cientes da desnecessidade do saber. Cada conhecimento apenas contribui para ampliar o sentimento de desconhecido!

112. Ó chato, neste momento deixa-te de tentativas merdosas, de pretenciosas observações, de suspiros, e mesmo das más intenções – excluí-te!

grande oraculo tretatérico




O supremo cânone da obscuridade - é fáCIL DE CONSULTAR

para gerar números basta utilizar este sítio: http://www.random.org/integers/


se quizer escolher só um número escreva em generate 1, se pretender uma sequência deles escreva o número que quizer de números que pretende


depois escreva os números em



Each integer should have a value between 1 and 81



e consulte o oráculo em baixo

esta é uma versão inventada/adaptada do «grande canone da obscuridade», isto é, do grnde falso canone homeostetico (6=9=0)




1. Centro. O que se mantém em si para si. O é.

2. Circulo completo. Anel. Ciclo. O eterno retorno.

3. Bloqueado. O beco. Sem saída.

4. Barreira. Aporia. Obstáculo. A emergência crítica.

5. Mantendo-se pequeno. Micrologia. Balbuciando. O quase anonimato. A discrição. A emergência minúscula.

6. Contrariedade. O problemático. O adverso. O que vem de outras direcções.

7. Subida. A conquista na hierarquia. A escalada. A inflação.

8. Op-posição. A dialéctica. O movimento refutante. O inimigo.

9.Ramificar. A teia. A rede. O rizoma. O tentacular. A divisibilidade.



10. Distorção. Deformação. O anamorfismo. O desvio metamórfico.

11. Divergência. A bifurcação. A alteração.

12. Juventude. O novo. O primaveril. O borbulhante. A erupção vibrante.

13. Aumentar. O bios. O crescimento.

14. Penetrar. O alvo preciso. A predação.

15. Atingir. O toque. A atenção. A pontaria. O choque.

16. Contacto. A junção dos contornos. O roçar.

17. Retenção. O reticente. A katharsis adiada. A contenção.

18. Aguardar. A armadilha. A passividade estratégica. A busca do ardil certo. A métis.

19. Encarreiramento. O rebanho. O seguidismo. O carreirismo. Os discípulos.

20. Avanço. O passo em frente. O Kouros. O adiantamento. A ousadia.

21. Libertar-se de algo. O desfazer-se. A desapropriação.

22. Resistência. O reverso do «dominante». O poder pela negação. O reactivo. O que contrabalança.

23. Facilidade. Sprezzatura. O des-esforço. O aparentemente natural.

24. Alegria. A efusão. O prazer. A plenitude.

25. Contenção. A prudência. A acção comedida. A estratégia discreta.

26. Empenho. O entusiasmo canalizado. A euforia com finalidade. O Enthousiasmous.

27. Obrigações. Finalidade sem entusiasmo. A rotina. A monotonia.

28. Mudança. O não monótono (a polifonia). A pulsão do tempo.

29. Decisividade. A acção potencial. A tonalização. A afinação.

30. Resolução firme. A mutação forte e consciente. O empurrão. O manifesto.

31. Embalamento. A propensão das coisas. O kairos. A epifania. A stimmung. O clima.

32. Legião (multidão+ exercito). A deslocação numerosa. A invasão. O acampamento. O comício.

33. Estar juntinho. A comunhão. O banquete. A fraternidade. A família.

34. Vizinhança. O que está próximo mas não pertence. O que se segue à comunidade.

35. Manutenção das forças. A energia. A potência. A castidade.

36. Força. O dinâmico. O avassalador.

37. Purificação. O fogo devorador. O revelante. O apocalíptico.

38. Estar-cheio. O auge. A maximização.

39. Ir morar. A ética. A coabitação. O politico.

40. Nomos (o dharma, a lei). A definição. A fórmula. A conduta. O que estipula. O que regra.

41. Resposta (responsabilidade). O estimulo. A pressão fantasmática. O dever. A dádiva.

42. Ir ao encontro. Deslocação. O movimento convergente. A interface.

43. Encontros. Contactos. Ajuntamentos.

44. Caldeirada (mistura, conjunção). Mestiçagem. O paradoxal. O monstruoso. O indefinível. A harmonia de opostos.

45. Grandeza. A doxa. A glória.

46. Alargamento (sublimação). A abertura. A expansão. A possibilitação.

47. Padrão (ritualização). A replicação. A reprodução. A uniformização. O mimetismo. A moda.

48. Ritual. A acção ritmada. A convergência sacrificial. A festa. O concerto.

49. Fuga. A debandada. O desconcertante. O desviante.

50. Vastidão. O sem limites. O desconhecido. E excesso. A desmesura. O colossal.

51. Constância. A regularidade. A normalidade. A confiança.

52. Medida. A proporção. A referência. O exemplo. O instrumento.

53. Eternidade. O não-tempo. O tempo imenso. O instante.

54. Unidade. A redução absortiva. O totalitarismo. A não-diferença. A singularidade.

55. Diminuição. Contração. Empobrecimento. O que se opõe à expansão.

56. Boca fechada. O silêncio. A censura. O emudecimento.

57. Guardamento. O segredo. O enigma. O não expresso. O pacto.

58. Encerramento. A colecta. A logística.



59.Amontoar. O aditivo. O coleccionar. O catalogar.

60. Acumular. A excessiva riqueza. A multiplicidade. A sobra. O por organizar.

61. Embelezamento. A arte. O supérfluo. O ornamento. O belo.

62. Dúvida. A inquirição. A especulação. A distinção critica. A indagação.

63. Contemplar. A passividade estética.O que paira. O borbulhar tranquilo.

64. Imersão. A dissolução. A liquidação.

65. Sublimidade. A evaporação. O etéreo. O nebuloso.

66. Dificuldade. A supressão. O desaparecimento. O desencontro.

67. Escurecimento. Desfocagem. O crepuscular. A aproximação do sombrio.

68. Obscurecimento. O desfazer-se. O ocaso. A negrura.

69. Exaustão. O cansaço. A fraqueza. O esgotamento.

70. Rompimento. A descontinuidade. O estilhaçar. O corte. O golpe.

71. Interrupção. O inacabado. O abismal. O amputado.

72. Dificuldade. Perplexidade. O incapaz.

73. Completamento (conclusão). O perfeito. O frio. O clássico. O depurado.

74. Fechamento. O domiciliário. O aprisionante.

75. Falhanço. O não atingido. O erro. O descontrolado.

76. Agravamento. A dificuldade crescente. A carência.

77. Condescendência. Tolerância. Flexibilidade.

78. No limite. Na margem. Na lâmina. A vanguarda. O stress.

79. Dificuldades. A necessidade. A sobrevivência.

8o.Trabalho. O esforço. A dependência. A domesticação.

81. Alimentação. O nutriente. O que é arrancado à terra.

Thursday, August 02, 2007

VIGYAN BHAIRAVA TANTRA







Esta é uma tradução já antiga de uma tradução que li no verão de 1981, ainda com os meus 18 anos, no livro Zen flesh Zen bones - prometo dar em breve outras traduções de outras traduções deste texto essêncial, assim como a minha paródia negativa.



Shiva, qual é a tua consistência?
O que é que este mundo cheio de maravilhas?
O que é constitui semente?
Quem centra a roda universal?
Qual é a vida para lá das formas invasoras?
Como poderemos entrar nela, para lá do espaço e do tempo, dos nomes e descrições.
Esclarece-me estas dúvidas!




1. Radiante, a revelação pode-se dar numa respiração. Após a inspiração e mesmo antes da expiração. Experimenta esta sua benificência.

2. No momento em que o ar vai ser expirado e também no momento em que vai ser inspirado, em cada desses momentos, toma consciência.

3. Ou ainda, quando o ar inspirado e expirado se fundem, nesses instante ressente a ausência de energia, ressente a presença de energia centrada.

4. Ou quando o ar for totalmente expirado e a respiração pára, ou quando o ar é totalmente inspirado e a respiração pára, durante essa pausa universal, o pequeno eu desvanece-se. Isso só é dificil para o impuro.

5. Considera a tua essencia como raios de luz despertando de chakra a chakra na vértebra, assim desperta a vivência em ti.

6. Ou nos espaços intermédios. Sente-o como relampagos.

7. Deusa, imagina o silabário devanagárico nesses focos de atenção recheados de mel. Primeiro os signos, e a seguir, subtilmente, os sons, e depois como sentimento subtilissimo. Deixando-os de lado, liberta-te.

8. Concentrado no ponto entre as sobrancelhas, deixa que o espirito se adiante aos pensamentos. Deixa que a essência da respiração encha a forma e suba até ao cimo da cabeça, e aí se espalhe como duche em luz.

9. Ou bem, imaginem que as cinco cores das caudas dos pavões são os vossos cinco sentidos, num espaço sem limites. Deixem a sua beleza invadir o espaço. Da mesma forma qualquer ponto num espaço ou sobre um muro. Até que o ponto se dissolve. Então o desejo de outra coisa realizar-se-á.

10. De olhos fechados, escrutina o teu ser profundo. Assim vê a tua própria natureza.

11. Concentra toda a tua atenção sobre o nervo, tão delicado quanto uma fibra de lotus, no centro da coluna vertebral. Assim, sê transformado.

12. Fechando as sete aberturas da cabeça com as tuas mãos, o espaço entre os teus olhos torna-se todo inclusivo.

13. Ao tocar os globos oculares como plumas, a ligeireza entre eles abre para o coração e aí satura o mundo.

14. Banha-te no centro do som, como num som continuo ou numa queda de àgua. Ou, pondo os dedos nas orelhas, escuta o som dos sons.

15. Entoa o som aum devagarinho. Mal o som atinja a plenitude sonora, também tu.

16. No inicio e gradual refinamento do som de cada letra, acorda.

17. Enquanto escutas instrumentos de corda, escuta o som composito central; assim a omnipresença.

18. Entoa um som audível. Depois cada vez menos audível até que o sentes mergulhar nessa silenciosa harmonia.

19. Imagina o espirito dentro e à tua volta até que o mundo inteiro se espiritualize.

20. Adorável Devi, entra na subtil presença que penetra muito mais fundo e para lá da tua forma.

21. Põe a tralha psiquica de uma forma optimamente inexprimivel por baixo, por cima, e no teu coração.

22. Considera qualquer area da tua presente forma como ilimitadamente espaçosa.

23. Sente a tua substancia, ossos, carne, sangue, saturados de prana.

24. Supõe que a tua forma passiva é um quarto vazio com paredes de pele: vazia.

25. Abençoado, assim como os sentidos se absorvem no coração, atinge o centro do lótus.


26. Mente desatenta, mantém-te no meio… até…

27. Sempre que estiveres em actividade verbal toma em atenção os dois sopros, e praticando isto, em alguns dias, renasce.

28. Concentra-te no fogo nascendo através da tua forma a partir dos calcanhares até que o corpo arda até às cinzas, mas não tu.

29. Medita no mundo aparente como ardendo até às cinzas, e torna-te num ser para lá do humano.

30. Sente as excelentes qualidades da creatividade atravessando o teu peito e assumindo configurações delicadas.

31. Com a ajuda do intangivel sopro no centro da fronte, quando este atinje o coração no momento do sono, sê o mestre dos teus sonhos e da própria morte.

32. Tal como as letras fluem subjectivamente para as palavras e as palavras para as frases, e tal como os circulos fluem objectivamente para os mundos e os mundos para principios, descobre finalmente estes convergindo no nosso ser.

33. Ò gracioso, joga! O universo é uma carapaça vazia em que a tua mente se diverte infinitamente.

34. Olha para uma taça sem ver os lados ou o material. Por alguns momentos torna-te ciente.

35. Permanece num local interminavelmente espaçoso, despejado de arvores, montanhas, casas. Assim terminam as pressões mentais.

36. Ò doce, medita no saber e no não saber, no existir e no não existir. Depois deixa-os de lado e sê.

37. Olha carinhosamente para um objecto. Não passes para outro. Aqui, dentro desse mesmo objecto: a benção.

38. Sente o mundo inteiro como uma presença translucida e sempre viva.

39. Com a maxima devoção concentra-te nas duas junções da respiração e conhece o conhecedor.

40. Considera o auge como sendo o teu corpo em extase.

41. Enquanto és acariciada, doce princesa, entra nessas carícias como numa vida que não tenha fim.

42. Fecha as portas dos sentidos às cocegas de uma formiga. Então.

43. No principio do estreitamento sexual, mantem-te inicialmente concentrado no fogo, e, prosseguindo, finaliza desembaraçando-te das brasas.

44. Em tal abraço os sentidos são abanados como folhas. Entra nesse estremecimento.

45. Mesmo recordando a união, sem o abraço: a transformação.

46. Ao ver alegremente um amigo à muito ausente, aprofunda essa alegria.

47. Quando bebendo ou comendo, torna-te no sabor da comida e da bebida, e enche-te.

48. Ah, tu que és a dos olhos em lotus e doce no toque; enquanto cantas, olhas ou saboreias, atenta no que és e descobre o sempre vivente.

49. Onde quer que seja que te satisfaças, seja qual for o acto, actualiza isto.

50. No ponto do sono em que o sono ainda não chegou, e a externa vigilia se dissolve, nesse ponto o ser é revelado.

51. No verão quando se consegue ver claro o céu interminável, entra em tal claridade.

52. Permanece deitado como um cadáver. Enraivecido na cólera, assim fica. Olha sem pestanejar. Ou ainda, aspira e torna-te o aspirado.

53. Sem o suporte dos pés e das mãos senta-te sómente no rabo. Subitamente o centramento.

54. Numa posição confortável, gradualmente penetra numa àrea entre os sovacos para dentro de uma enorme paz.

55. Vê, como se fosse a primeira vez um santo e um objecto vulgar.

56. Com a boca ligeiramente aberta, mantem-te concentrado no meio da lingua. Ou, assim que o sopro vem silenciosamente, sente o som HH.

57. Quando numa cama ou num assento, deixa-te tornar sem peso, para lá do pensamento.

58. Num veiculo em movimento, oscilando ritmicamente, experimenta. Ou num veiculo parado, deixando-te andar à volta em circulos invisiveis.

59. Ao olhar simplesmente o céu azul para além das nuvens: a serenidade.

60. Shakti, vê todo o espaço como se já estivesse absorvido na tua cabeça, brilhando.



61. Acordando, dormindo, sonhando, conhece-te enquanto luz.

62. Na chuva, durante uma noite negra, entra na negritude como na forma das formas.

63. Quando uma noite de chuva sem luar não está presente, fecha os olhos e descobre a escuridão à tua frente. Abrindo os olhos, vê a escuridão. Assim as tuas falhas desaparecem para sempre.

64. Mal tenhas o impulso de fazer qualquer coisa, pára.

65. Concentra-te no som aum sem a ou m.

66. Silenciosamente entoa uma palavra terminando em AH. Depois em HH, sem esforço: a espontaneidade.

67. Sente-te a penetrar em todas as direcções: longe, perto.

68. Perfura alguma parte da tua forma cheia de mel com um alfinete, e, amávelmente, entra na prefuração.

69. Sente: o meu pensamento, essência do eu, orgãos internos: eu.

70. Ilusões decepcionam. Cores circunscrevem. Mesmo os divisiveis são indivisiveis.

71. Quando qualquer desejo chega presta-lhe atenção. Seguidamente larga-o.

72. Antes do desejo e do conhecimento, como poderia dizer o que sou? Toma atenção. Dissolve em beleza.

73. Com a consciencia inteira no principio do desejo, do que há a saber sabe.

74. Oh Shakti, cada percepção especifica é limitada, desaparecendo na Omnipotência.

75. Na verdade as formas são inseparáveis. Inseparáveis são o ser omnipotente e a tua própria forma. Considera cada como produzida por esta consciência.

76. Em estados de extremo desejo permanece imperturbável.

77. Este universo assim chamado assemelha-se a um truque, a um espetaculo. Alegra-te assim ao olhá-lo.

78. Oh bem amado, coloca a atenção em algo que não seja dor nem prazer, mas entre estes.

79. Deita fora o que te agarra ao corpo, concluindo que estou em toda a parte. Quem está em toda a parte é alegre.

80. Objectos e desejos existem tanto em mim como nos outros. Ao aceitá-los traduzam-se.

81. A apreciação dos objectos e assuntos é a mesma para um iluminado e um não-iluminado. O primeiro tem uma vantagem: permanece no dominio pessoal, não perdido nas coisas.

82. Sente a consciencia de cada um como a tua própria. Assim, pondo de lado as preocupações com o próprio, torna-te cada ser.

83. Pensando coisíssima nenhuma, torna ilimitadas as tuas próprias limitações.

84. Crê omniscente, omnipotente, invadinte.

85. Assim como as ondas trazem àgua e o fogo chamas, assim connosco as ondas do mundo.



86. Vagueia até à exaustão e então atira-te para no chão, e neste despejar sê inteiro.

87. Supõe que gradualmente ficas desprovido de força ou conhecimento. No instante de desprovisão, ultrapassa.

88. Escuta enquanto o derradeiro ensinamento mistico é concedido: Olhos parados, sem pestanejar, e subitamente torna-te absolutamente livre.

89. Obliterando as orelhas ao comprimi-las e o ânus contraindo-o, deixa entrar o som dos sons.

90. À beira de um poço fundo olha sem te mexeres para as suas profundezas até que: a maravilha.

91. Onde quer que a tua mente vagueie, interna ou externamente, nesse mesmo lugar, isso.

92. Quando vividamente atento através de um sentido específico, mantém a atenção.

93. No inicio do espirro, durante o susto, na ansiedade, sob um precepício, fugindo na batalha, em extrema curiosidade, no inicio da raiva, no fim da raiva, sê ininterruptamente atento.

94. Deixa que a atenção esteja num local onde vejas acontecimentos passados, e mesmo a tua forma, tendo perdido as caracteristicas presentes, é transformada.

95. Olha para um objecto à tua frente. Depois, lentamente, vai desviando a atenção dele. A seguir, lentamente, desvia o teu pensamento dele. Então.

96. A devoção liberta.

97. Sente um objecto perante ti. Sente a ausência de todos os objectos excepto este. Depois, pondo de lado a sensação do objecto ou da sua ausência, compreende.

98. A pureza dos outros ensinamentos é como impureza para nós. Na verdade nada é puro ou impuro.

99. Esta consciencia existe como cada ser, e nada mais existe.

100. Sê o diferido mesmissimo para um amigo ou um desconhecido, na honra e na desonra.

101. Quando sentes que algo contra alguém ou para alguém desperta, não ponhas a pessoa em questão, mas permanece concentrado.

102. Supõe que contemplas alguém para lá da precepção, de qualquer alcance, para além do não-ser: tu.



103. Entra no espaço, sem suporte, eterno, imóvel.

104. Sempre que a tua atenção se acende, nesse momento preciso, experimenta.

105. Entra no som do teu nome e através desse som em todos os sons.

106. Estou a existir. Isto é meu. Isto é isto. Ò bem amada, nisso conhece a ilimitabilidade.

107. Esta consciencia é o espirito de conduta de cada um. Sê esse.

108. Esta é uma esfera de mudança, mudança, mudança. Através da mudança consuma a mudança.

109. Tal como a galinha cuida dos pintainhos, cuida tu dos conhecimentos particulares, dos actos particulares, na realidade.

110. Uma vez que, na verdade, servidão e liberdade são relativos, estas palavras são para aqueles vivem aterrorizados com o universo. Este universo é um reflexo de pensantes. Tal como podes ver muitos sois na agua a partir de um sol, do mesmo modo vê a servidão e a libertação.

111. Cada coisa é percebida através do conhecimento. O si-próprio brilha no espaço através do conhecimento. Entende o ser-se como conhecedor e conhecido.

112. Bem amada, neste momento deixa que o pensar, o conhecer, o respirar e o formar sejam incluidos.